Fui ao mercado com minha mãe e meu pai hoje. Não pensei que uma saída rotineira como essa me levaria a pensar tão profundamente sobre certas coisas.
Como de praxe, meu pai permaneceu no estacionamento dentro do carro. Eu e minha mãe subimos para comprar várias porcarias necessárias para o fim de semana. Quando nos aproximávamos do caixa, percebi um mendigo que pagava uma garrafa de vinho vagabundo. Meu pensamento preconceituoso logo me disse “olha lá aquele bêbado comprando seu vício de novo”. Mas como esses pensamentos não permanecem em mim por muito tempo, senti pena e raciocinei que aquela era a única forma dele passar o tempo e manter-se vivo.
Descemos ao estacionamento e minha mãe, como sempre, encontrou uma amiga e parou para conversar. Fui até o carro e fiquei do lado de fora, observando o movimento e os carros que se apertavam no estacionamento lotado em um dia de chuva. Reparei em um canto escuro que tinha algumas sacolas, um cachorro branco sentado e um mendigo com sua garrafa de vinho. Lá estava ele. Acendeu um cigarro, sentou-se no chão e começou a procurar algo. O cachorro acompanhava cada movimento atento. Não aparentava maus tratos ou magreza, era um cão saudável. O mendigo puxou uma sacola que continha alguns pastéis, que não deveriam ter custado mais que R$3,00. No ato pensei: ele não pode fazer isso, se der para o cachorro, fica sem comida. O cãozinho observava os movimentos atentamente, esperando algo que pudesse matar sua fome. Estava sentado, acabou deitando na espera de comida. Mas não, ela não veio. Os pastéis foram guardados novamente em algum canto. Aquele homem sabia que provavelmente, ele e seu companheiro, não teriam outra refeição tão cedo e que não poderiam sobreviver apenas com vinho. O cachorro branco deitou-se ao lado do mendigo e dormiu, enquanto seu dono bebia o vinho e fumava.
Moral da história: se aquele cão fosse uma pessoa, permaneceria ali? Fiquei pensando sobre a mediocridade do ser humano. Quando nós não gostamos das atitudes de alguém, julgamos de peito estufado e falamos tudo de mal que existir sobre ela. Geralmente, nos tornamos amigos de uma pessoa que julgamos “decente”. Não saímos por aí seguindo meninos de rua, convidando eles para uma festa, oferecendo uma bebida. Nossa própria criação impede que isso aconteça e nos envergonhamos por qualquer anormalidade que se aproxime de nossas vidas. Diferenças sociais, diferenças sexuais, diferenças de pensamentos. Isso nos distancia e nos faz achar que somos melhores, ponto final. O cachorro é sempre citado como melhor amigo do homem, e eu digo: cães são os melhores exemplos para o homem. Eles ficam quando todos se vão. O cachorrinho branco ficou quando toda a sociedade deus as costas para o mendigo. Ele ficou ali, permaneceu ao lado, mesmo quando o seu dono lhe negou comida. E ele não tem a inteligência para pensar que o homem apenas guardou o alimento para quando fosse mais necessário e urgente. Foi fiel e companheiro. Coisa que nenhuma pessoa consegue ser hoje em dia porque somos movidos pelo egoísmo e orgulho. Basta um erro alheio e largamos de mão, penduramos as chuteiras e abandonamos o barco. Afinal, existem muitas pessoas no mundo que podem ser úteis sem nos incomodar.
Se seu amigo perdesse tudo e fosse morar na rua, pedir esmola e comer lixo... você continuaria sendo amigo (a) dele? Continuaria ao seu lado, sentaria na calçada com ele (a) e defenderia ele do mundo? Se não houvesse escolha, se tudo isso acontecesse e você não pudesse ajudar, pudesse apenas oferecer companhia incondicional, permaneceria lá? Pra quem disse sim, me desculpe, mas eu queria a verdade. Ninguém mais larga o próprio mundo para apoiar o do outro. Percebe-se isso quando passamos por catadores de lixo, mendigos, crianças pobres e simplesmente enxergamos o outro lado da rua.
Os cães permanecem, os humanos fingem que não conhecem.

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